Atualizado em 15/08/2026 às 01:32
Viajar sendo autista pode ser uma experiência maravilhosa, mas, para mim, ela começa muito antes de colocar a mala no carro ou entrar em um avião. No meu caso, o planejamento da viagem faz parte da própria viagem. Sou autista nível 1 de suporte, assim como meu filho, e uma das coisas que mais gostamos de fazer em família é conhecer novos destinos, explorar lugares diferentes e descobrir quais passeios realmente valem a pena.
Antes de prosseguir, leia: 10 dicas para Viajar de avião com criança autista
Antes de mais nada, quero deixar uma coisa clara: este não é um guia médico e muito menos uma fórmula sobre como uma pessoa autista deve viajar. O espectro autista é diverso, e cada pessoa apresenta características, necessidades e formas próprias de lidar com situações. Por isso, tudo o que conto aqui representa a minha experiência, a experiência do meu filho e aquilo que funciona para a nossa família. O próprio Ministério da Saúde destaca essa diversidade e a importância de considerar as necessidades individuais de cada pessoa com TEA.
Dito isso, talvez você esteja pensando: como uma pessoa autista consegue gostar tanto de viajar se mudanças, imprevistos e ambientes desconhecidos podem causar desconforto? No meu caso, a resposta está justamente na previsibilidade.
Mas como é viajar para o Chile sendo autista? Neste artigo, compartilho minha experiência e dicas
Viajar sendo autista começa muito antes da viagem
Primeiramente, quando escolho um destino e defino a época da viagem, alguma coisa muda na minha cabeça: aquele lugar passa a ocupar uma parte enorme dos meus pensamentos. A viagem vira meu hiperfoco.
Então começo a pesquisar.
Procuro a cultura local, a história, as curiosidades, os lugares mais visitados, os destinos menos conhecidos, os restaurantes, os costumes, as avaliações de outros viajantes, os erros que outras pessoas cometeram e as dicas que poderiam facilitar nossa experiência.
Além disso, consumo conteúdos em diferentes redes sociais. Assisto a vídeos, leio relatos, vejo fotografias, comparo roteiros e procuro informações sobre aquilo que pretendo conhecer.
De certa maneira, quando finalmente chego ao destino, tenho a sensação de que já estive ali.
E isso me traz conforto.
O lugar que antes era desconhecido passou a ser conhecido, estudado e, dentro do possível, previsível. Consequentemente, aquilo que poderia provocar insegurança diminui bastante.
Para muitas pessoas, talvez pareça exagero pesquisar tanto antes de uma viagem. Para mim, entretanto, esse processo é prazeroso.
Eu realmente gosto de planejar.
Planejamento de viagem para autista: quanto mais informação, melhor
Em seguida, começo a estudar o destino de uma maneira quase minuciosa.
Baixo mapas das cidades, observo as distâncias, verifico como chegar aos principais pontos turísticos e calculo aproximadamente quanto tempo precisaremos para cada deslocamento.
Também analiso os horários de funcionamento, os melhores períodos para visitar determinadas atrações e os possíveis locais para fazer uma refeição.
Depois, organizo o roteiro por dia e, sempre que possível, distribuo os passeios de acordo com o ritmo da nossa família.
Não significa que eu queira controlar absolutamente tudo.
Na verdade, significa que ter uma estrutura conhecida me permite aproveitar melhor aquilo que não posso controlar.
Por exemplo, sei que determinado passeio começa às 9 horas, que provavelmente levaremos determinado tempo para chegar, onde podemos comer e quais outras atrações ficam próximas. Se alguma coisa mudar, pelo menos tenho informações suficientes para reorganizar o restante do dia.
Por isso, gosto de montar roteiros detalhados, mas também deixo espaço para adaptações.
Afinal, imprevistos fazem parte de qualquer viagem.
O planejamento não elimina completamente o inesperado; ele apenas me deixa mais preparada para lidar com ele.
Para mim, planejamento não tira a espontaneidade da viagem. Ele cria segurança suficiente para que eu consiga aproveitar a espontaneidade quando ela aparece.
O roteiro detalhado me ajuda a viajar com mais tranquilidade
Outro ponto importante é que eu não planejo somente os lugares que vamos visitar.
Também penso no clima, nas roupas, nos deslocamentos, nos horários de alimentação e nos períodos de descanso.
Se a previsão indica frio, por exemplo, adapto as atividades e separo roupas adequadas. Se determinado passeio exige bastante caminhada, penso no que teremos depois dele. Caso uma atração seja muito distante de outra, avalio se realmente vale a pena colocar as duas no mesmo dia.
Além disso, considero o perfil da nossa família.
Nós gostamos de caminhar bastante. Não somos uma família que se cansa facilmente e, muitas vezes, conseguimos explorar uma cidade durante várias horas.
Mesmo assim, isso não significa que todos os dias precisam ser intensos.
Com o tempo, aprendi que um roteiro bom não é aquele que coloca o maior número possível de atrações em um único dia.
Um roteiro bom é aquele que permite aproveitar as atrações sem destruir a energia necessária para continuar a viagem.
Essa foi uma das maiores mudanças que fiz depois de algumas experiências.
Mudança de rotina durante uma viagem
Embora eu adore viajar, a mudança de rotina ainda representa um desafio para mim.
Como adulta autista, consigo desenvolver estratégias para me regular melhor, mas isso não significa que meu corpo simplesmente ignore as alterações.
O sono muda.
Os horários das refeições mudam.
O ambiente muda.
A cama muda.
Os deslocamentos aumentam.
Além disso, passamos muitas horas em lugares diferentes daqueles que fazem parte da nossa rotina.
No nosso caso, existe ainda uma questão alimentar importante: temos intolerância à lactose. Eu também tenho seletividade alimentar em relação a carnes, o que interfere nas escolhas durante algumas viagens.
Por essa razão, tento antecipar essas situações sempre que possível.
Ainda assim, sei que nenhuma viagem seguirá exatamente o roteiro planejado.
Por isso, uma das estratégias que mais funciona para nossa família é reservar o dia da ida e o dia da volta exclusivamente para o deslocamento.
Não costumo colocar passeios importantes nesses dias.
Chegamos, descansamos, organizamos as coisas com calma e deixamos o corpo entender que a rotina mudou.
Da mesma forma, na volta, prefiro não retornar de uma viagem intensa e imediatamente tentar retomar todas as atividades como se nada tivesse acontecido.
Esse pequeno cuidado faz muita diferença.
Viajar de avião sendo autista: o preparo começa em casa
Quando a viagem envolve avião, meu planejamento começa ainda antes de sair de casa.
Primeiramente, procuro organizar tudo com antecedência para não precisar fazer as coisas correndo.
Documentos, bagagem, horários, transporte até o aeroporto e informações do voo ficam previamente conferidos.
Assim, evito aquela sensação de estar esquecendo alguma coisa.
Além disso, chegar cedo ao aeroporto faz parte da nossa estratégia.
Não gosto de sair correndo.
Prefiro chegar com tempo suficiente para localizar o terminal, passar pelos procedimentos necessários, encontrar o portão de embarque e depois simplesmente esperar.
Durante o percurso, roupas confortáveis também fazem diferença.
Fones de ouvido fazem parte dos itens que considero importantes, principalmente porque o aeroporto reúne muitos estímulos ao mesmo tempo.
São pessoas conversando, avisos sonoros, malas passando, filas, carrinhos, crianças, música, movimentação e mudanças constantes de fluxo.
Mesmo assim, quando sei previamente o que vai acontecer, consigo lidar melhor com tudo isso.
A previsibilidade no aeroporto reduz minha ansiedade
Outro aspecto que funciona para nossa família é conhecer previamente o processo.
Sei que precisaremos passar por determinadas etapas. Sei que teremos espera. Sei que precisaremos caminhar até o portão. Sei que provavelmente haverá mudanças de última hora.
Paradoxalmente, até mesmo saber que algo pode mudar ajuda.
Afinal, a mudança deixa de ser completamente desconhecida.
Nas viagens que fizemos, inclusive em períodos de alta temporada, a prioridade foi respeitada quando precisamos utilizá-la. Isso também trouxe mais tranquilidade para nossa família.
Porém, existe uma realidade que considero importante mencionar: nem toda dificuldade de uma pessoa autista é visível para quem está ao redor.
Por isso, uma pessoa pode utilizar atendimento prioritário mesmo que outras pessoas não compreendam imediatamente o motivo.
Essa é uma questão que ainda gera olhares e julgamentos.
No nosso caso, tentamos não deixar esses olhares definirem nossa experiência.
Quando temos direito a um atendimento ou recurso de acessibilidade, utilizamos.
Ao mesmo tempo, procuramos manter o respeito pelas outras pessoas que também precisam daquele atendimento.
O que eu aprendi sobre viajar sendo autista
Depois de tantas pesquisas, roteiros e viagens, percebi que existe uma diferença enorme entre viajar sem planejamento e viajar com liberdade dentro de um planejamento que funciona para você.
Para algumas pessoas, montar um roteiro detalhado pode parecer cansativo.
Para mim, é justamente o contrário.
Planejar uma viagem durante meses pode ser uma das partes mais prazerosas de todo o processo.
Eu pesquiso, comparo, descubro lugares, salvo mapas, assisto a vídeos e construo possibilidades.
Quando finalmente chegamos ao destino, sinto que uma parte da viagem já aconteceu.
Agora começa a parte que mais gosto: transformar aquilo que pesquisei durante meses em uma experiência real.
E talvez esse seja um dos motivos pelos quais eu gosto tanto de viajar.
Não é apenas conhecer um lugar.
É pesquisar, imaginar, planejar, chegar e finalmente viver aquilo que passei meses construindo na minha cabeça.
Para mim, isso é maravilhoso.
Leia também: Viajar com criança autista
Veja também 10 dicas para viajar de avião com criança autista
Barulho durante a viagem: o que mais me incomoda
Quando penso em viajar sendo autista, uma das questões que mais merece atenção na minha experiência é o excesso de estímulos sonoros. Não significa que qualquer barulho me incomode. Na verdade, consigo conversar, ouvir pessoas falando e participar normalmente de ambientes sociais. O que pesa para mim é principalmente o som alto, contínuo ou inesperado.
Por exemplo, já tivemos experiências em vans de passeio nas quais a música estava muito acima do que considerava confortável. Pedimos para diminuir o volume, mas nem sempre fomos atendidos. Nesse momento, a situação deixa de ser apenas uma preferência pessoal e começa a interferir diretamente na minha capacidade de aproveitar o passeio.
Além disso, alguns sons específicos provocam uma reação muito forte em mim. Pessoas mastigando de boca aberta, determinados ruídos produzidos durante a alimentação ou alguns hábitos que envolvem sons repetitivos podem me irritar em um grau que talvez pareça desproporcional para quem está ao lado.
Contudo, para mim, a sensação é bastante real.
Não é simplesmente pensar: “Esse barulho é desagradável”.
É sentir que aquele estímulo começa a ocupar espaço demais na minha atenção.
Sensibilidade sensorial em viagens: quando preciso diminuir os estímulos
Por esse motivo, sempre observo como estou me sentindo durante os passeios. No começo de uma viagem, normalmente consigo lidar bem com uma quantidade maior de estímulos. Entretanto, conforme os dias passam, o acúmulo pode começar a aparecer.
Uma música alta aqui, uma fila ali, muitas pessoas falando ao mesmo tempo, um ambiente cheio, uma alimentação diferente, pouco descanso e várias horas caminhando podem parecer situações isoladas.
Juntas, porém, elas podem pesar bastante.
Por isso, uma das estratégias que desenvolvemos em família é perceber os sinais antes de chegar ao limite.
Quando percebo que estou ficando irritada, cansada ou incomodada com estímulos que normalmente conseguiria administrar, considero isso um aviso.
Nesse momento, voltar para o apartamento ou para o hotel não significa que a viagem deu errado.
Pelo contrário.
Significa que estamos respeitando o nosso limite para conseguir continuar aproveitando os próximos dias.
Filas e multidões: nem todo passeio vale a espera
Outro ponto muito importante para nossa família são as filas.
Leia nosso artigo: Direitos da pessoa autista nos aeroportos
Mesmo utilizando atendimento prioritário quando temos esse direito, a espera continua sendo um fator que considero na hora de decidir se determinado passeio realmente vale a pena.
Afinal, existe uma diferença entre conseguir entrar em uma atração e conseguir aproveitá-la bem.
Quando encontramos uma fila enorme, avaliamos a situação. Dependendo do passeio, simplesmente desistimos.
Pode parecer frustrante chegar a um lugar tão esperado e decidir não entrar. Ainda assim, aprendi que uma viagem não precisa ser uma competição para conhecer o maior número possível de atrações.
Se a espera representar um nível de desgaste muito grande, prefiro procurar outra atividade.
Além disso, existe uma questão que considero delicada: os olhares.
Como as características do autismo nem sempre são visíveis, algumas pessoas podem não compreender por que estamos utilizando atendimento prioritário. Às vezes, percebemos olhares de julgamento.
Isso pode ser desconfortável.
Mesmo assim, aprendi a não permitir que a opinião de desconhecidos determine nossas escolhas.
Quando precisamos de um recurso de acessibilidade e temos direito a ele, utilizamos.
Como escolhemos lugares com menos filas
Por consequência, durante o planejamento procuro identificar horários de menor movimento, atrações que permitem compra antecipada de ingressos e locais que tenham espaços mais amplos.
Também verifico se existe possibilidade de visitar determinado ponto turístico logo pela manhã ou em horários menos procurados.
Essa pesquisa acontece antes da viagem.
Assim, quando chegamos ao destino, já temos algumas alternativas.
Se o local estiver muito cheio, não precisamos ficar completamente perdidos tentando descobrir o que fazer.
Podemos simplesmente mudar o plano.
Essa possibilidade de escolha é muito importante para mim.
Sobrecarga sensorial durante uma viagem
Embora o planejamento reduza bastante os problemas, ele não impede completamente uma sobrecarga sensorial.
Isso é importante dizer porque às vezes existe a ideia de que, se uma pessoa autista planejar tudo corretamente, nunca terá dificuldades.
Não é assim.
Somos humanos, viajamos, ficamos cansados e encontramos situações que não estavam previstas.
Em algumas viagens, percebo que os estímulos começam a se acumular. Nesse momento, procuro diminuir a quantidade de informações ao meu redor.
Um ambiente mais silencioso ajuda.
Ficar no apartamento também ajuda.
Tomar banho, colocar uma roupa confortável, ficar um pouco sozinha e simplesmente não precisar decidir nada durante determinado período podem fazer uma diferença enorme.
Por isso, considero o local de hospedagem parte da estratégia de regulação.
Não escolho apenas pensando em preço ou localização.
Penso também:
“Se eu precisar me afastar de tudo por algumas horas, este lugar vai me proporcionar conforto?”
Essa pergunta mudou bastante a maneira como escolho hospedagens.
Por que gostamos mais de apartamentos durante as viagens
Entre hotel e apartamento, nossa família costuma preferir uma casa ou apartamento.
Primeiramente, o espaço maior proporciona mais possibilidades de organização.
Além disso, conseguimos manter algumas características da nossa rotina, preparar alguma refeição, organizar os alimentos e ter um ambiente para descansar sem precisar permanecer em uma área comum.
Outro benefício é poder voltar para a hospedagem depois de um passeio intenso e simplesmente fechar a porta.
Ali, temos nosso espaço.
Não precisamos conversar com outras pessoas, participar de atividades do hotel ou permanecer em ambientes compartilhados.
Para uma família que valoriza previsibilidade e momentos de silêncio, isso representa uma diferença enorme.
Quando escolho uma hospedagem, portanto, não observo apenas a fotografia bonita do quarto.
Analiso a localização, o acesso, os ruídos, a possibilidade de preparar alimentos, o tamanho do espaço e a facilidade para chegar e sair.
Cansaço durante a viagem: aprender a respeitar o próprio ritmo
Outro aprendizado importante veio justamente das viagens em que exagerei no roteiro.
No começo, eu queria aproveitar tudo.
Se existiam cinco lugares interessantes em uma cidade, minha primeira vontade era conhecer os cinco.
Se havia uma atração próxima, eu pensava: “Já estamos aqui, então vamos aproveitar”.
Com o tempo, percebi que esse raciocínio nem sempre funciona.
Em algumas viagens, terminamos o dia extremamente cansados porque coloquei atividades demais no mesmo roteiro.
Hoje faço diferente.
Procuro deixar as noites livres.
Normalmente, fazemos apenas caminhadas leves e curtas nesse período. Depois, voltamos para descansar e dormir mais cedo.
Dessa maneira, consigo preservar energia para as manhãs e tardes, que costumam ser os períodos em que mais gostamos de explorar os destinos.
Se percebemos que determinado lugar está muito mais movimentado do que imaginávamos, também não existe obrigação de permanecer ali.
Podemos encerrar o passeio.
Essa liberdade de decisão tornou nossas viagens muito mais agradáveis.
Por que viajar de carro funciona tão bem para nossa família
Nesse contexto, o carro se tornou um grande facilitador.
Quando alugamos um carro ou utilizamos nosso próprio veículo, conseguimos controlar melhor os horários e fazer pausas quando precisamos.
Não dependemos do ritmo de um grupo.
Não precisamos acompanhar o horário de uma van turística.
Também conseguimos parar para comer, descansar, fotografar ou simplesmente observar uma paisagem.
Durante viagens de carro, gosto especialmente de fazer pequenas paradas pelo caminho.
Para algumas pessoas, isso pode tornar o trajeto mais demorado.
Para nós, muitas vezes torna a viagem melhor.
A possibilidade de controlar o ritmo reduz bastante a sensação de estar presa a um cronograma que outra pessoa determinou.
Nem todo passeio precisa acontecer
Finalmente, talvez uma das maiores lições que aprendi seja esta: não precisamos fazer tudo.
Uma atração pode ser maravilhosa.
Uma cidade pode ter dezenas de pontos turísticos.
Um passeio pode estar em todas as listas de “o que fazer”.
Ainda assim, se naquele momento não estiver funcionando para nossa família, podemos escolher outra coisa.
Essa percepção mudou completamente minha maneira de viajar.
Antes, eu poderia sentir que estava “perdendo” alguma coisa ao abandonar um passeio.
Hoje penso de outra maneira.
Se conseguimos voltar para a hospedagem tranquilos, conversar sobre o que vivemos e continuar aproveitando os próximos dias, talvez aquela decisão tenha sido justamente a melhor escolha.
Afinal, para mim, viajar não significa cumprir uma lista de atrações.
Viajar significa conhecer, explorar, experimentar e criar boas memórias.
E, para que isso aconteça, precisamos respeitar o nosso próprio ritmo.
Alimentação durante a viagem: nem sempre consigo manter a rotina
Além dos estímulos do ambiente, a alimentação também exige planejamento durante nossas viagens. No meu caso, existe a intolerância à lactose e também uma seletividade alimentar relacionada principalmente a carnes. Portanto, escolher onde comer não é apenas uma questão de preferência ou de encontrar um restaurante bonito.
Primeiramente, procuro pesquisar os restaurantes que ficam próximos aos lugares que visitaremos. Quando possível, verifico o cardápio antes, observo fotografias dos pratos e leio comentários de outros viajantes. Dessa forma, consigo chegar ao destino com algumas opções já conhecidas.
Entretanto, nem sempre conseguimos seguir exatamente aquilo que planejamos. Afinal, durante uma viagem podem surgir mudanças de horário, atrasos, passeios mais longos ou simplesmente a falta de opções adequadas naquele momento.
Por isso, aprendi a trabalhar com possibilidades.
Se o restaurante que eu havia planejado não estiver disponível, já tento ter uma segunda alternativa. Caso também não funcione, procuramos uma opção mais simples.
Nesse sentido, restaurantes com comidas mais caseiras costumam funcionar melhor para nossa família. Pratos que permitem escolher os acompanhamentos ou identificar com facilidade os ingredientes costumam proporcionar mais segurança.
Ainda assim, não quero passar a impressão de que conseguimos controlar completamente nossa alimentação durante uma viagem.
Não conseguimos.
E está tudo bem.
Viajar também significa sair um pouco da rotina. O segredo, pelo menos para mim, está em encontrar um equilíbrio entre previsibilidade suficiente para me sentir segura e flexibilidade suficiente para aproveitar a experiência.
Como escolho a hospedagem quando viajo sendo autista
Outro fator que considero essencial é a hospedagem.
Embora existam hotéis excelentes, nossa família geralmente prefere apartamentos ou casas. Principalmente porque esse tipo de hospedagem oferece mais espaço e permite manter algumas características da rotina.
Por exemplo, podemos organizar nossas coisas com calma, preparar alguma refeição, escolher o horário para dormir e ter um ambiente reservado quando precisamos descansar.
Além disso, depois de um dia inteiro explorando uma cidade, gosto de saber que podemos simplesmente voltar para nosso espaço.
Não precisamos continuar socializando.
Não precisamos permanecer em áreas comuns.
Podemos tomar banho, colocar uma roupa confortável, diminuir os estímulos e descansar.
Consequentemente, a hospedagem deixa de ser apenas o lugar onde dormimos e passa a fazer parte da estratégia para tornar a viagem mais confortável.
Ao pesquisar uma acomodação, portanto, observo muito mais do que preço e localização.
Verifico o tamanho do espaço, a possibilidade de preparar alimentos, os comentários sobre barulho, a distância dos pontos que queremos visitar e a facilidade de deslocamento.
Viajar com poucas pessoas funciona melhor para nossa família
Outro aprendizado importante aconteceu em relação às pessoas que viajam conosco.
Atualmente, percebemos que viajar com poucas pessoas funciona melhor.
Não significa que não gostamos de companhia.
Na verdade, gostamos de viajar com meus pais. A diferença está no perfil de quem nos acompanha.
Eles conhecem nossa rotina, entendem nossas necessidades e sabem que existem momentos em que precisamos de silêncio ou de um pouco de isolamento.
Quando preciso ficar algum tempo no quarto para me regular, por exemplo, eles respeitam.
Da mesma maneira, conseguem compreender que nem sempre estaremos disponíveis para conversar ou acompanhar determinada atividade.
Isso faz uma diferença enorme.
Afinal, uma viagem pode se tornar muito mais cansativa quando precisamos explicar constantemente por que estamos cansados, por que queremos silêncio ou por que preferimos determinada organização.
Com pessoas que entendem nosso funcionamento, consigo relaxar.
Por que viajar com muitas pessoas pode ser mais difícil
Por outro lado, algumas experiências me mostraram que viajar com grupos maiores nem sempre funciona para nós.
Quando muitas pessoas participam da viagem, naturalmente surgem diferentes ritmos, preferências e expectativas.
Uma pessoa quer acordar cedo.
Outra prefere dormir até mais tarde.
Alguém quer fazer cinco passeios no mesmo dia.
Outra pessoa gostaria de ficar descansando.
Enquanto isso, nossa família precisa de previsibilidade e de momentos de recuperação.
Consequentemente, precisamos fazer escolhas.
Por isso, quando temos liberdade para decidir, preferimos viajar no nosso ritmo.
Essa autonomia permite alterar um roteiro, fazer uma pausa ou simplesmente voltar para a hospedagem sem precisar negociar cada mudança com várias pessoas.
O que funciona para mim pode não funcionar para outro autista
É importante reforçar essa questão porque falar sobre viajar sendo autista exige cuidado.
Eu sou autista nível 1 de suporte.
Meu filho também é autista nível 1 de suporte.
Mesmo assim, não somos iguais.
Temos preferências diferentes, limites diferentes e formas diferentes de reagir a determinadas situações.
Portanto, não acredito em uma receita universal.
Talvez uma pessoa autista adore viajar em excursão.
Talvez outra prefira viajar sozinha.
Algumas pessoas podem se sentir muito bem em hotéis movimentados, enquanto outras podem preferir um apartamento silencioso.
Da mesma maneira, determinadas pessoas podem gostar de improvisar e outras podem precisar de um roteiro bastante detalhado.
Por isso, tudo o que compartilho neste artigo deve ser entendido como relato de experiência, e não como regra para todas as pessoas autistas.
O que eu faria diferente nas minhas próximas viagens
Depois de algumas experiências, também aprendi muito com aquilo que não funcionou.
Em primeiro lugar, hoje evito colocar atrações demais no mesmo dia.
Já fiz isso algumas vezes.
Pensava que, como os lugares eram próximos, seria possível encaixar mais uma atração.
Depois outra.
E mais uma.
No final, chegávamos à noite completamente exaustos.
Embora tivéssemos conhecido muitos lugares, o cansaço diminuía a qualidade da experiência.
Atualmente, prefiro conhecer menos atrações e aproveitá-las melhor.
Além disso, evito depender de grupos ou vans turísticas sempre que temos outra alternativa.
Não porque esse formato seja ruim.
Simplesmente porque ele não combina tanto com o nosso perfil.
Precisamos de autonomia para decidir quando começar, quando parar, onde comer e quando retornar.
Por consequência, carro próprio ou alugado costuma funcionar muito bem para nossa família.
Aprendi que uma viagem boa não precisa ser perfeita
Talvez essa tenha sido uma das maiores mudanças na minha maneira de viajar.
Antes, eu queria que tudo acontecesse exatamente como havia planejado.
Hoje, continuo planejando muito.
Na verdade, talvez planeje até mais.
Entretanto, aprendi a diferenciar planejamento de controle.
Planejar significa conhecer o destino, estudar possibilidades e criar caminhos.
Controlar seria acreditar que absolutamente tudo precisa acontecer conforme o roteiro.
Isso não existe em uma viagem.
Um voo pode atrasar.
O tempo pode mudar.
Um restaurante pode estar fechado.
Uma atração pode estar lotada.
O trânsito pode surpreender.
Uma criança pode cansar.
Eu posso ficar sobrecarregada.
Meu filho pode precisar interromper uma atividade.
Por isso, atualmente, procuro construir roteiros que tenham alternativas.
Se o plano A não funcionar, existe o plano B.
Caso o plano B também não seja possível, podemos simplesmente descansar.
Viajar sendo autista também pode ser uma experiência incrível
Apesar de todos esses desafios, eu não vejo o autismo como algo que me impede de viajar.
Muito pelo contrário.
Uma das coisas que mais amo é justamente pesquisar profundamente um destino.
Enquanto algumas pessoas podem comprar uma passagem e começar a pensar na viagem poucos dias antes, eu consigo passar meses pesquisando.
Descubro a história.
Conheço a cultura.
Estudo os mapas.
Procuro restaurantes.
Analiso os bairros.
Pesquiso os passeios.
Vejo fotografias.
Assisto a vídeos.
Leio relatos.
Comparo experiências.
Então, quando finalmente chego, sinto uma familiaridade enorme.
É como se eu já conhecesse aquele lugar antes mesmo de pisar nele.
E isso é muito confortável para mim.
Meu hiperfoco também pode se transformar em uma ferramenta para viajar
Nesse processo, algo que faz parte da minha experiência autista acaba se tornando uma grande aliada: o hiperfoco.
Quando escolho um destino, quero saber tudo.
Não faço isso apenas porque preciso reduzir a ansiedade.
Eu realmente gosto.
Pesquisar uma viagem é prazeroso.
Encontrar uma atração que quase ninguém menciona pode ser tão empolgante quanto descobrir um dos principais pontos turísticos.
Encontrar um restaurante que parece combinar com nossa família também faz parte da diversão.
Da mesma forma, estudar um mapa e perceber que determinado passeio pode ser combinado com outro me dá uma sensação enorme de satisfação.
Por isso, hoje vejo meu jeito de planejar como uma característica que pode contribuir positivamente para minhas viagens.
Não preciso transformar essa característica em um problema.
Posso utilizá-la a meu favor.
Turismo inclusivo também precisa considerar diferentes necessidades
Por outro lado, acredito que o turismo ainda pode avançar muito quando falamos em inclusão de pessoas autistas.
Quando pensamos em acessibilidade, muitas vezes lembramos imediatamente de rampas, elevadores ou adaptações físicas.
Esses recursos são fundamentais.
Contudo, pessoas autistas também podem precisar de outras formas de acessibilidade.
Informações claras ajudam.
Ambientes menos barulhentos ajudam.
Filas menores podem ajudar.
Possibilidade de conhecer previamente o espaço ajuda.
Cardápios disponíveis antecipadamente ajudam.
Funcionários preparados ajudam.
Espaços tranquilos também podem fazer diferença.
Em outras palavras, turismo inclusivo não significa oferecer exatamente a mesma experiência para todo mundo.
Significa criar condições para que diferentes pessoas consigam acessar e aproveitar aquela experiência.
O que eu gostaria que outros viajantes autistas soubessem
Finalmente, se eu pudesse conversar com uma pessoa autista que está pensando em viajar, eu diria para começar conhecendo o próprio perfil.
Observe o que costuma gerar desconforto.
Perceba quais situações ajudam na sua regulação.
Identifique quais estímulos são mais difíceis.
Pense em quanto tempo você precisa para descansar.
Depois, construa a viagem a partir dessas informações.
Não tente viajar da mesma maneira que outra pessoa.
Não precisa fazer todos os passeios.
Não precisa ficar até o final de uma atração.
Não precisa suportar um ambiente que está fazendo mal apenas porque todo mundo quer permanecer ali.
Você pode adaptar.
Pode fazer pausas.
Pode mudar o roteiro.
Pode voltar para a hospedagem.
Pode escolher lugares menos movimentados.
Pode viajar no seu ritmo.
E, principalmente, pode gostar de viajar.
Para mim, viajar é conhecer o mundo sem deixar de respeitar quem eu sou
Hoje, quando penso em minhas viagens, não vejo apenas destinos.
Vejo todo o caminho que existe antes de chegar até eles.
Vejo as pesquisas.
Os mapas.
As listas.
Os roteiros.
As roupas separadas de acordo com o clima.
Os restaurantes pesquisados.
Os horários calculados.
As possibilidades alternativas.
Vejo também os momentos em que precisamos parar, voltar para a hospedagem ou desistir de alguma atração.
Tudo isso faz parte da nossa maneira de viajar.
Ser autista não eliminou meu desejo de explorar o mundo.
Na verdade, encontrei maneiras de fazer isso respeitando minhas necessidades e as necessidades da minha família.
Além disso, viajar com meu filho me ensinou que inclusão não precisa significar fazer uma viagem completamente diferente.
Às vezes, significa apenas adaptar o ritmo, oferecer previsibilidade, respeitar os limites e permitir que cada pessoa participe da experiência da maneira que consegue.
Viajar do nosso jeito também é viajar
Por fim, talvez essa seja a mensagem que eu mais gostaria de deixar neste artigo.
Não existe uma única maneira correta de viajar.
Para nossa família, viajar significa pesquisar muito, planejar bastante, caminhar, explorar, conhecer história e cultura, experimentar lugares novos e procurar experiências que realmente façam sentido para nós.
Também significa saber quando parar.
Significa respeitar o silêncio.
Significa escolher uma hospedagem confortável.
Significa evitar uma fila enorme quando sabemos que ela vai nos desgastar.
Significa trocar um passeio por outro sem culpa.
Significa aceitar que um roteiro pode mudar.
Acima de tudo, significa poder conhecer o mundo sem precisar deixar nossas necessidades em casa.
Eu sou autista nível 1 de suporte.
Meu filho também é.
E nós amamos viajar.
Talvez nossas viagens tenham mais planejamento do que as de algumas famílias. Talvez precisemos pensar em detalhes que outras pessoas nem percebem. Entretanto, isso não diminui nossa vontade de conhecer novos lugares.
Pelo contrário.
Quando encontro um destino que desperta minha curiosidade, começo novamente.
Pesquiso.
Estudo.
Planejo.
Monto o roteiro.
Faço adaptações.
E, depois de meses imaginando aquela viagem, finalmente chegamos.
Nesse momento, todo o planejamento deixa de ser apenas uma estratégia para lidar com a ansiedade.
Ele se transforma em algo que também amo:
a oportunidade de transformar um destino que existia na minha imaginação em uma experiência real.
✈️ Continue planejando sua próxima viagem
Se você também viaja com uma pessoa autista, alguns dos próximos conteúdos do Família Almeida na Estrada podem ajudar no planejamento:
Como viajar de avião com criança autista: dicas para aeroporto e voo
Uma última dica da nossa família
Se você está planejando uma viagem e é autista, ou viajará com uma criança autista, não comece perguntando apenas:
“O que existe para fazer nesse destino?”
Pergunte também:
“O que precisamos para conseguir aproveitar esse destino bem?”
Essa pequena mudança de perspectiva pode transformar completamente a experiência.
Porque, no final, a melhor viagem não é aquela em que conseguimos fazer tudo.
É aquela em que conseguimos voltar para casa com boas lembranças.


