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Viajar com Criança Autista: Checklist Completo de uma Mãe e Também Autista para Evitar Imprevistos

Viajar sempre fez parte da nossa família. Muito antes de escrever este artigo, já passávamos horas pesquisando roteiros, hotéis, passeios e tudo o que pudesse tornar cada viagem mais tranquila. No entanto, depois do diagnóstico do meu filho, percebemos que planejar deixou de ser apenas uma forma de economizar dinheiro. Na verdade, passou a ser uma maneira de evitar crises, reduzir a ansiedade e proporcionar experiências realmente agradáveis para todos.

NESTE ARTIGO

Meu diagnóstico

Além disso, alguns anos depois, a nossa história ganhou um novo capítulo. Durante a investigação do autismo do Lucas, muitos comportamentos descritos pela neuropsicóloga também faziam parte da minha vida. Entretanto, como acontece com muitas mulheres, eu mascarava várias características e, durante muito tempo, elas foram confundidas com ansiedade, depressão ou apenas uma personalidade mais reservada.

Somente depois de realizar minha própria avaliação neuropsicológica e psiquiátrica recebi o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 1 de suporte.

Por isso, este artigo nasceu de uma perspectiva diferente.

Não escrevo apenas como mãe de uma criança autista.

Também escrevo como uma mulher autista que ama viajar.

Ao longo dos últimos anos aprendemos detalhes que dificilmente aparecem nos guias tradicionais de turismo. Descobrimos que pequenos ajustes na hospedagem, na alimentação, na escolha dos passeios e até mesmo no horário da viagem podem transformar completamente a experiência de uma família atípica.

O que você encontrará neste checklist?

Este checklist para viajar com criança autista reúne aquilo que realmente utilizamos nas nossas viagens. Não se trata de um protocolo médico nem substitui a orientação dos profissionais que acompanham seu filho. Pelo contrário, é um guia baseado na nossa vivência, nos erros que já cometemos, nos acertos que deram certo e nas adaptações que fizeram toda a diferença.

Meu objetivo é simples: ajudar outras famílias a viajar com mais segurança, menos estresse e muito mais tranquilidade.


Por que este checklist é diferente de tudo o que você já encontrou?

Se você pesquisou sobre viajar com uma criança autista, provavelmente encontrou dezenas de listas dizendo apenas “leve os documentos”, “não esqueça os remédios” ou “planeje a viagem”.

Tudo isso é importante.

Entretanto, quase ninguém explica por que cada detalhe pode fazer tanta diferença para uma família autista.

Ao longo das nossas viagens percebemos que um simples quarto barulhento, um restaurante sem opções para seletividade alimentar ou uma mudança inesperada de roteiro podem desencadear muito mais do que um pequeno desconforto.

Esses fatores podem gerar sobrecarga sensorial, ansiedade, irritação e até fazer com que um passeio esperado durante meses deixe de ser aproveitado.

Além disso, existe outro ponto que raramente aparece nos artigos da internet.

Meu ponto de vista com mãe de uma criança autista e pessoa com autismo

Eu também sou autista.

Enquanto ajudo meu filho a lidar com aeroportos movimentados, filas, mudanças de rotina e ambientes desconhecidos, também preciso administrar minhas próprias necessidades sensoriais.

Por esse motivo, nosso planejamento nunca foi apenas um cronograma de viagem.

Ele se tornou uma estratégia para que todos consigam aproveitar o destino com mais conforto.

Ao longo deste artigo, compartilho exatamente aquilo que aprendemos na prática. São experiências reais de quem viaja, adapta roteiros, muda planos quando necessário e entende que cada família autista possui necessidades diferentes.

Minha experiência como mulher autista

Durante muito tempo achei que me sentia extremamente cansada após viajar porque era “normal”. Somente depois do diagnóstico percebi que a sobrecarga sensorial causada por aeroportos, excesso de interação social e mudanças constantes de ambiente consumia minha energia. Quando comecei a respeitar essas pausas, nossas viagens ficaram muito mais leves.


O que uma família sem autismo normalmente não precisa planejar (mas nós planejamos)

Uma família costuma escolher o destino, reservar o hotel e comprar as passagens.

Depois disso, muitas decisões são tomadas durante a própria viagem.

Na nossa rotina, isso dificilmente acontece.

Antes mesmo de confirmar qualquer reserva, pesquisamos praticamente tudo.

Analisamos a distância, o tempo de deslocamento, o melhor meio de transporte, os horários mais tranquilos para viajar, os locais de parada, os restaurantes próximos e até o movimento esperado para cada passeio.

Quando o Lucas era menor, por exemplo, quase sempre viajávamos durante a noite. Dessa forma, evitávamos longos congestionamentos e diminuíamos o tempo de exposição ao trânsito intenso.

Além disso, outro aspecto sempre fez parte do nosso planejamento: a alimentação.

Durante muitos anos a intolerância à lactose e a seletividade alimentar exigiram um cuidado enorme. Por isso, quase sempre levávamos lanches preparados em casa e pesquisávamos antecipadamente se existiam mercados, restaurantes ou hotéis com opções que ele realmente aceitasse comer.

Essa é uma dica que considero indispensável.

Nunca conte apenas com a alimentação disponível durante a viagem.

Mesmo quando o destino possui muitas opções gastronômicas, pesquise antes. Se necessário, entre em contato com o hotel ou restaurante e pergunte sobre restrições alimentares. Muitos estabelecimentos conseguem adaptar refeições quando recebem essa informação antecipadamente.

Outra característica importante do nosso planejamento é alternar passeios mais movimentados com ambientes tranquilos.

Sempre que possível, priorizamos parques ao ar livre, locais com menor tempo de espera e atrações que oferecem atendimento prioritário para pessoas autistas.

Também fazemos algo que pode parecer simples, mas evita muitos problemas: revisão completa do carro antes de viajar.

Para qualquer família isso já é importante.

Para nós, ficar horas parados em uma estrada por causa de um problema mecânico pode representar uma mudança brusca de rotina e um grande desgaste emocional.

Por isso, sempre tentamos antecipar aquilo que está ao nosso alcance.


O que uma criança autista sente antes de viajar? Entender isso muda completamente o planejamento

Uma viagem começa muito antes de entrar no carro ou embarcar no avião.

Ela começa na cabeça da criança.

Cada pessoa autista reage de uma maneira diferente à antecipação. No caso do Lucas, descobrimos que falar sobre a viagem com muita antecedência aumentava bastante a ansiedade.

Por isso, adaptamos nossa forma de comunicar.

Hoje contamos sobre a viagem alguns dias antes e explicamos cada etapa com calma.

Mostramos fotos, vídeos, mapas, hotéis, passeios e até os restaurantes que provavelmente iremos conhecer.

Entretanto, sempre deixamos claro que alguns planos podem mudar.

Essa pequena mudança na forma de conversar reduziu bastante a frustração quando o clima, um atraso ou qualquer imprevisto altera o roteiro.

Outro comportamento que percebemos é que viajar se transforma em um verdadeiro hiperfoco.

O Lucas pesquisa praticamente tudo.

Quer saber sobre a geografia do lugar, a moeda, a bandeira, a cultura, a comida típica, a quantidade de habitantes e inúmeras curiosidades.

Em vez de tentar controlar esse interesse, passamos a utilizá-lo como parte da preparação.

Assim, a viagem deixa de ser apenas uma mudança de rotina e passa a ser uma grande descoberta.

Por outro lado, mudanças inesperadas continuam sendo um dos maiores desafios.

Mesmo com muito planejamento, elas acontecem.

Quando precisamos alterar um passeio, explicamos o motivo e mostramos que a nova opção também pode ser interessante. Nem sempre funciona imediatamente, mas percebemos que acolher os sentimentos e oferecer alternativas costuma trazer resultados muito melhores do que simplesmente dizer “vai ser assim”.

Como preparamos nosso filho (e nós mesmos) para viajar sem aumentar a ansiedade

Durante muito tempo, eu acreditava que bastava preparar o Lucas para a viagem. Com o passar dos anos, percebi que eu também precisava me preparar.

Afinal, depois do meu diagnóstico de autismo, entendi que muitas situações que me deixavam exausta durante uma viagem não eram “frescura” nem ansiedade exagerada. Eram sinais claros de sobrecarga sensorial.

Hoje, antes mesmo de fazer as malas, pensamos no bem-estar da família inteira.

Sempre priorizamos uma boa noite de sono antes de viajar, organizamos os horários das refeições e evitamos sair correndo de casa. Pode parecer um detalhe simples, porém começar uma viagem cansado aumenta muito as chances de irritação, desregulação e estresse, principalmente em crianças autistas.

Outro cuidado que aprendemos na prática é respeitar o nosso ritmo.

Quando viajamos de carro, por exemplo, fazemos várias paradas ao longo do percurso. Aproveitamos esses momentos para caminhar um pouco, usar o banheiro, tomar água, observar a paisagem, conhecer um mirante ou simplesmente respirar.

Pode até parecer que demoramos mais para chegar ao destino. Entretanto, para nós, essas pausas fazem parte da viagem.

Elas evitam o cansaço físico e ajudam na regulação emocional.

Minha experiência como mulher autista

Uma das maiores descobertas que fiz depois do diagnóstico foi entender que socializar durante muitas horas seguidas exige um esforço enorme de mim.

Por isso, hoje evitamos viajar em grupos grandes ou dividir o mesmo carro e o mesmo quarto com outras pessoas.

Não é falta de educação.

Também não significa que não gostamos da companhia dos amigos ou familiares.

Na verdade, precisamos de momentos de silêncio para recuperar nossa energia.

Certa vez li uma frase que resume exatamente esse sentimento:

“Para muitas pessoas autistas, a socialização não é conforto. É demanda.”

Quando estamos apenas nós três, conseguimos respeitar nossos próprios horários, fazer pausas quando necessário e permanecer alguns minutos em silêncio sem que isso cause qualquer constrangimento.

Depois que passamos a compreender essa necessidade, nossas viagens ficaram muito mais leves.

Menos passeios, mais qualidade

Outro erro que cometíamos era querer conhecer tudo no mesmo dia.

Como gostamos muito de viajar, montávamos roteiros intensos, principalmente quando o Lucas era menor.

No entanto, percebemos rapidamente que excesso de atividades gera excesso de estímulos.

Hoje organizamos os passeios de forma completamente diferente.

Preferimos aproveitar melhor a manhã e a tarde e deixar as noites livres.

Em vez de incluir mais uma atração turística, normalmente escolhemos um jantar tranquilo, uma caminhada ao ar livre ou simplesmente descansar na hospedagem.

Essa pequena mudança transformou completamente a nossa experiência.

Além disso, sempre verificamos alguns pontos antes de comprar qualquer ingresso:

  • existe um espaço tranquilo para descanso?
  • há alimentação adequada caso o Lucas precise?
  • é fácil voltar ao hotel se ele se cansar?
  • o local possui acessibilidade para pessoas autistas?
  • existem áreas abertas para diminuir a sobrecarga sensorial?

Pode parecer muito planejamento.

Entretanto, para nossa família, planejamento significa liberdade.

Checklist completo de documentos para viajar com criança autista

Independentemente do destino ou do meio de transporte escolhido, documentos são os primeiros itens do nosso checklist.

Inclusive, essa é uma etapa que nunca deixamos para a última hora.

Antes de cada viagem, conferimos todos os documentos pessoais, verificamos a validade e consultamos as exigências do destino diretamente nos órgãos oficiais. Essa prática evita imprevistos que poderiam comprometer toda a viagem.

Se você pretende viajar para outro país, consulte sempre os requisitos atualizados junto à Polícia Federal, ao Ministério das Relações Exteriores e às autoridades migratórias do país de destino. As regras podem mudar e variam conforme o local visitado.

Documentos pessoais

✔ Documento oficial da criança

✔ Documento dos responsáveis

✔ Passaporte (quando necessário)

✔ Autorizações de viagem, se aplicáveis

Leia também: Como planejar uma viagem do zero

CIPTEA: um documento que facilita muito a viagem

A Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA) nunca fica fora da nossa bolsa.

Quando o Lucas era pequeno, utilizava o cordão de identificação.

Hoje, na pré-adolescência, preferimos carregar a carteirinha física junto aos documentos e também mantê-la disponível no aplicativo Gov.br.

Assim, caso seja necessário apresentar a identificação durante um atendimento prioritário, tudo fica facilmente acessível.

A CIPTEA foi instituída pela Lei nº 13.977/2020 (Lei Romeo Mion) e tem como objetivo facilitar a identificação da pessoa com TEA, contribuindo para o acesso aos direitos previstos em lei.

Fonte: Lei nº 13.977, de 8 de janeiro de 2020.

Laudo médico: quando vale a pena levar?

Embora muitas pessoas pensem que o laudo médico precisa ser renovado frequentemente, isso nem sempre é verdade.

Desde a publicação da Lei nº 13.977/2020, o laudo que confirma o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista possui validade por prazo indeterminado para fins de comprovação da condição, conforme a legislação vigente.

Mesmo assim, sempre levamos uma cópia impressa e outra salva em PDF no celular.

Além de facilitar atendimentos, isso transmite muito mais segurança caso seja necessário comprovar rapidamente o diagnóstico.

Receitas médicas

Se seu filho utiliza medicamentos de uso contínuo, converse com o médico antes da viagem.

Sempre levamos:

  • receita médica atualizada;
  • quantidade suficiente de medicamentos para todo o período;
  • uma pequena reserva para eventuais atrasos.

Em viagens internacionais, vale a pena verificar se o país exige a receita traduzida ou possui restrições para determinados medicamentos.

Seguro viagem: um item que nunca economizamos

Se existe um investimento que considero indispensável, é o seguro viagem.

Mesmo em destinos onde ele não é obrigatório, nunca viajamos sem essa proteção.

Ao longo das nossas viagens, já enfrentamos mudanças bruscas de temperatura, alterações alimentares e pequenos problemas de saúde que exigiram atendimento médico.

Felizmente, estávamos segurados.

Além da assistência médica, um bom seguro pode oferecer cobertura para extravio de bagagem, atrasos de voo, cancelamentos e diversos outros imprevistos.

Quando viajamos com uma criança autista, reduzir riscos significa viajar com muito mais tranquilidade.

👉 Dica: antes de contratar, compare planos que incluam atendimento médico, telemedicina, cobertura para medicamentos e suporte em português.Plano que indicamos é da Assist Card  

Checklist da mochila: os itens que nunca esquecemos

Se existe uma mochila que nunca pode faltar nas nossas viagens, é a “mochila de avião”

Ela não ocupa muito espaço e cabe muitas coisas.

Entretanto, já evitou inúmeras situações de estresse.

Com o tempo aprendemos que esses objetos não são “mimos”.

Eles funcionam como ferramentas de autorregulação.

Abafador de ruído

Depois da nossa primeira viagem internacional, prometi para mim mesma que nunca mais esqueceria esse item.

Naquela ocasião, deixei o abafador em casa.

O aeroporto estava extremamente barulhento e o Lucas ficou bastante desregulado.

Foi uma situação difícil para todos.

Desde então, o abafador faz parte do nosso checklist permanente.

Além de leve, ocupa pouco espaço e costuma ser um dos melhores investimentos para famílias que convivem com hipersensibilidade auditiva.

Travesseiro de pescoço

Pode parecer apenas um acessório.

No entanto, ele proporciona muito conforto durante viagens longas de carro, ônibus ou avião.

Além de facilitar o descanso, o travesseiro ajuda bastante quando o corpo precisa permanecer sentado por muitas horas.

Máscara para dormir

Sempre levamos.

Seja durante voos noturnos, viagens de ônibus ou até mesmo em hotéis muito claros, a máscara ajuda bastante a reduzir a luminosidade e favorece um sono mais tranquilo.

Objeto de conforto

Cada criança possui um objeto que transmite segurança.

Pode ser um ursinho, uma pelúcia, um carrinho, um tablet, um Kindle ou qualquer outro item que ajude na regulação emocional.

Independentemente de qual seja, ele precisa estar sempre por perto.

Óculos de sol e boné

Esses dois itens fazem muita diferença, principalmente durante viagens de carro.

A claridade intensa pode causar desconforto sensorial e aumentar a irritabilidade.

Por isso, nunca saímos sem eles.

Água e lanches leves

Por fim, sempre carregamos água e pequenos lanches.

Muitas crises começam por algo simples: fome, sede ou longos períodos de espera.

Ter esses itens à mão evita boa parte desses problemas.

Como evitar crises durante a viagem? A alimentação pode ser mais importante do que você imagina

Se eu pudesse dar apenas um conselho para outra família atípica antes de viajar, seria este: nunca subestime a alimentação.

Muitas pessoas imaginam que uma criança autista ficará feliz apenas por estar em um lugar diferente. Entretanto, a realidade costuma ser outra. Quando existe seletividade alimentar, encontrar algo que ela aceite comer pode definir se o dia será tranquilo ou cheio de estresse.

No nosso caso, aprendemos isso da forma mais difícil.

Durante alguns períodos, o Lucas aceitava um número muito limitado de alimentos. Por isso, antes de qualquer viagem, pesquisávamos supermercados, restaurantes, cafeterias e até farmácias próximos à hospedagem. Assim, já sabíamos onde encontrar os alimentos que faziam parte da rotina dele.

Hoje esse planejamento continua fazendo parte do nosso checklist.

Sempre verificamos o cardápio do hotel antes da reserva. Quando as informações não estão disponíveis, entramos em contato diretamente com a hospedagem para perguntar se existe alguma possibilidade de adaptação.

Na maioria das vezes, os hotéis demonstram boa vontade quando explicamos a situação com antecedência.

Nossa dica que nunca falha

Mesmo pesquisando bastante, sempre levamos alguns alimentos na mala.

Pode ser um biscoito que ele gosta, um snack específico ou qualquer outro alimento industrializado permitido para a viagem.

Esse pequeno cuidado já evitou várias situações difíceis.

Além disso, durante viagens longas de carro, costumamos organizar uma pequena bolsa térmica com água, frutas, lanches leves e opções que sabemos que serão aceitas sem dificuldade.

Pode parecer excesso de planejamento.

Para nós, é tranquilidade.


Como escolhemos hotéis pensando no conforto sensorial da nossa família

Antes de prosseguir leia nosso artigo Hospedagem para autistas: hotel ou Airbnb para famílias atípicas

Durante muito tempo eu escolhia hospedagens apenas pelas fotos bonitas.

Até que algumas experiências mostraram que isso não era suficiente.

Foi preciso errar algumas vezes para entender que o conforto sensorial pode ser tão importante quanto a localização ou o preço.

Hoje nosso processo de escolha é completamente diferente.

Antes de reservar qualquer hotel, apartamento ou casa de temporada, pesquisamos muito.

Lemos avaliações recentes, observamos fotografias enviadas pelos hóspedes e, quando necessário, entramos em contato diretamente com a hospedagem para esclarecer dúvidas.

Isolamento acústico

Esse é um dos primeiros pontos que verificamos.

Barulho constante durante a noite pode comprometer completamente o descanso.

Sempre procuro avaliações que mencionem ruídos vindos da rua, festas próximas ou paredes muito finas.

Se encontro diversos comentários reclamando do barulho, simplesmente procuro outra hospedagem.

Dormir bem faz toda a diferença para nós.


Iluminação

Nem toda pessoa autista apresenta a mesma sensibilidade à luz.

No nosso caso, não é o fator que mais interfere.

Mesmo assim, sempre verifico se o quarto possui cortinas blackout, porque elas ajudam bastante quando precisamos descansar durante o dia.

Se a iluminação for uma questão importante para seu filho, vale pesquisar esse detalhe antes da reserva.


Localização

Sempre damos preferência para locais onde seja possível caminhar com segurança.

Muitas vezes precisamos apenas sair para dar uma volta, respirar ou diminuir a sobrecarga sensorial.

Poder fazer isso sem depender do carro ou de transporte público faz muita diferença.


Café da manhã

Outro detalhe que nunca deixamos passar.

Sempre verificamos se existem alimentos compatíveis com a rotina alimentar do Lucas.

Quando necessário, entramos em contato antes da viagem.

Esse simples telefonema já evitou diversos problemas.


A experiência que mudou completamente nosso jeito de reservar hotéis

Nunca vou esquecer de uma hospedagem que parecia perfeita nas fotos.

Quando chegamos ao quarto, descobrimos que ele  não tinha janela.

Era apenas uma estrutura decorativa.

Confesso que consegui permanecer ali por poucos minutos.

Expliquei ao gerente sobre a condição do Lucas e também sobre a minha necessidade de um ambiente mais confortável.

Felizmente conseguimos trocar de quarto.

Desde esse dia, verificar se o quarto possui janelas reais passou a fazer parte do nosso checklist definitivo.

Pode parecer um detalhe pequeno.

Para nós, mudou completamente a forma de escolher hospedagens.


O que aprendemos depois de muitas viagens em família autista

Se alguém tivesse me perguntado alguns anos atrás qual era o segredo para viajar com uma criança autista, provavelmente eu responderia: planejamento.

Hoje continuo pensando a mesma coisa.

A diferença é que aprendi que planejamento não significa tentar controlar tudo.

Significa conhecer sua família.

Durante muito tempo montávamos roteiros iguais aos que apareciam nas redes sociais.

Queríamos visitar todos os pontos turísticos famosos.

No entanto, percebemos que nem sempre o passeio mais famoso é o melhor para nós.

Em várias viagens deixamos de visitar atrações extremamente concorridas porque sabíamos que enfrentaríamos filas longas, excesso de pessoas e muito barulho.

No começo fiquei com receio de estar perdendo alguma coisa.

Depois entendi que viajar não é cumprir uma lista de atrações.

É criar boas lembranças.

Hoje escolhemos lugares que combinam com o nosso ritmo.

E isso tornou nossas viagens muito mais leves.

Minha experiência como mulher autista

Aprendi que adaptar um roteiro não significa desistir da viagem. Significa respeitar os nossos limites. Curiosamente, depois que parei de comparar nossas viagens com as de outras famílias, passei a aproveitá-las muito mais.


Como lidamos com imprevistos sem deixar que eles estraguem a viagem

Por mais organizado que seja o planejamento, imprevistos acontecem.

Pode chover.

Um passeio pode ser cancelado.

O trânsito pode aumentar.

O voo pode atrasar.

Em vez de lutar contra situações que não podemos controlar, aprendemos a criar alternativas.

Sempre montamos um Plano B.

Se uma atividade ao ar livre precisar ser cancelada, já sabemos quais museus, cafés, centros culturais ou atrações cobertas existem nas proximidades.

Essa estratégia reduziu bastante nossa ansiedade.

Lembro de uma viagem para Curitiba em que a chuva mudou completamente nossos planos.

Inicialmente ficamos frustrados.

Depois decidimos visitar um museu que nem estava no roteiro.

Foi uma das melhores surpresas daquela viagem.

O espaço possuía ambientes tranquilos e áreas muito confortáveis para descanso.

No fim do dia percebemos que o passeio improvisado havia sido melhor do que a programação original.

Desde então, sempre explicamos ao Lucas que mudanças podem acontecer.

E que isso não significa que a viagem ficará pior.

Apenas será diferente.

Checklist para viajar de avião com criança autista: o que nunca esquecemos

Viajar de avião deixou de ser motivo de preocupação para a nossa família quando entendemos que o segredo não estava apenas na organização da mala, mas principalmente em preparar cada etapa da experiência.

Hoje, mesmo depois de várias viagens nacionais e internacionais, seguimos praticamente o mesmo checklist.

Ele reduz a ansiedade, evita imprevistos e deixa todos mais tranquilos.

Leia também: Direito da pessoa autista em aeroportos e  Como viajar de avião com criança autista 

Utilize o embarque prioritário

Muitas famílias deixam de exercer esse direito por receio ou simplesmente porque não sabem que ele existe.

Sempre que viajamos, solicitamos o embarque prioritário.

Essa medida reduz o tempo de espera em filas, evita aglomerações e permite que o Lucas entre na aeronave com mais calma.

Além disso, embarcar antes facilita a organização da bagagem e diminui a quantidade de estímulos logo no início da viagem.

Base legal: Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e demais normas de acessibilidade aplicáveis ao atendimento prioritário. Consulte também as orientações da companhia aérea e da administração do aeroporto.


Prepare seu filho para o tempo de espera

Mesmo chegando cedo ao aeroporto, normalmente precisamos aguardar o horário do embarque.

Por isso, sempre levamos itens que ajudam o Lucas a passar esse tempo de maneira tranquila.

Na nossa mochila nunca faltam:

  • tablet;
  • Kindle;
  • brinquedos sensoriais;
  • livros;
  • fones abafadores;
  • água;
  • pequenos lanches.

Quanto mais previsível for esse momento, menores costumam ser os sinais de ansiedade.


Nunca dependa apenas da alimentação do aeroporto ou do avião

Esse foi um dos aprendizados mais importantes das nossas viagens.

Embora alguns aeroportos ofereçam diversas opções, nem sempre encontramos alimentos compatíveis com a seletividade alimentar.

Por isso, sempre levamos lanches que sabemos que serão aceitos.

Essa simples atitude evita muito estresse.


O abafador de ruído nunca mais saiu da nossa mochila

Depois da primeira viagem internacional, prometi que jamais esqueceria esse item novamente.

Naquela ocasião, o Lucas ficou bastante desregulado por causa do excesso de sons no aeroporto.

Hoje o abafador faz parte da nossa lista permanente.


Pressão nos ouvidos merece atenção

Cada criança reage de uma forma.

Antes de viajar, converse com o pediatra para saber se existe alguma orientação específica para seu filho.

Além disso, mastigar durante a decolagem e o pouso costuma ajudar algumas crianças.

No nosso caso, sempre seguimos a recomendação médica individualizada.


Checklist para viagens de carro com criança autista

Viajar de carro sempre foi a forma que mais combina com a nossa família.

Gostamos da liberdade de mudar o roteiro, fazer pausas e conhecer lugares inesperados.

Entretanto, essa flexibilidade só funciona porque existe planejamento.


Faça pausas estratégicas

Não dirigimos durante muitas horas seguidas.

Sempre paramos em locais seguros para:

  • usar o banheiro;
  • caminhar um pouco;
  • fazer um lanche;
  • observar a paisagem;
  • visitar um mirante.

Essas pequenas pausas ajudam tanto o Lucas quanto nós.


Trabalhe a previsibilidade

Antes da viagem mostramos:

  • o trajeto;
  • os horários aproximados;
  • onde iremos parar;
  • quanto tempo falta;
  • quais cidades iremos atravessar.

Quanto mais previsível fica o percurso, mais tranquilo costuma ser o deslocamento.


Objetos de conforto devem ficar sempre por perto

Nunca colocamos esses itens dentro da mala.

Eles permanecem ao alcance das mãos durante toda a viagem.

Pode ser:

  • pelúcia;
  • travesseiro;
  • brinquedo favorito;
  • Kindle;
  • tablet;
  • cobertinha.

São pequenos detalhes que fazem enorme diferença.


Música também influencia

Cada criança possui um perfil diferente.

No nosso caso, música alta nunca funcionou.

Preferimos sons baixos e ambientes tranquilos.

Observe o que realmente acalma seu filho, em vez de seguir uma regra pronta.


Direitos da pessoa autista durante viagens: conheça os principais

Conhecer os direitos da pessoa autista tornou nossas viagens muito mais tranquilas.

Sempre pesquisamos antecipadamente quais benefícios são oferecidos pelo destino, pela companhia aérea, pelos parques e pelas atrações turísticas.

Muitas vezes encontramos atendimento prioritário, filas preferenciais, descontos ou adaptações que facilitam bastante a experiência.

Entretanto, nem todos os locais seguem exatamente os mesmos critérios.

Por isso, sempre recomendamos consultar os canais oficiais antes da viagem.

Entre os direitos mais comuns estão:

  • atendimento prioritário;
  • filas preferenciais;
  • embarque prioritário;
  • acessibilidade;
  • atendimento humanizado.

Legislação importante

  • Lei nº 12.764/2012 — Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
  • Lei nº 13.146/2015 — Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.
  • Lei nº 13.977/2020 (Lei Romeo Mion) — Institui a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA).

Consulte sempre os órgãos oficiais e os regulamentos específicos das companhias aéreas, parques e atrações antes da viagem.


Os erros que nós já cometemos e que você pode evitar

Se hoje nossas viagens são mais tranquilas, é porque aprendemos muito com os próprios erros.

Alguns deles parecem pequenos.

Na prática, fizeram uma enorme diferença.

Esquecer o abafador

Foi o erro da nossa primeira viagem internacional.

Nunca mais aconteceu.


Viajar de carro sem ar-condicionado

Durante muitos anos isso funcionou.

Viajávamos à noite, abríamos as janelas e tudo corria bem.

Até que pegamos trânsito, chuva e um calor muito forte.

O Lucas ficou extremamente desconfortável.

Depois desse dia, entendemos que conforto também é acessibilidade.


Escolher hospedagem apenas pelo preço

Já ficamos em hotéis extremamente barulhentos.

Dormimos mal.

No dia seguinte ninguém aproveitou o passeio.

Hoje priorizamos conforto sensorial.


Dividir quarto com muitas pessoas

Percebemos que nossa família precisa de pausas.

Quando dividíamos quarto com outras pessoas, acabávamos socializando o tempo todo.

Voltávamos das férias mais cansados do que quando saímos.

Hoje respeitamos essa necessidade.


Não levar alimentos conhecidos

Esse erro nunca mais repetimos.

Mesmo pesquisando restaurantes, sempre carregamos opções que sabemos que serão aceitas.


Checklist definitivo para imprimir antes da viagem

Antes de sair de casa, confira se tudo está organizado.

Documentos

☐ Documento da criança

☐ Documento dos responsáveis

☐ Passaporte

☐ CIPTEA

☐ Laudo médico

☐ Receitas

☐ Seguro viagem


Saúde

☐ Medicamentos

☐ Kit de primeiros socorros

☐ Protetor solar

☐ Repelente


Mochila sensorial

☐ Abafador

☐ Máscara para dormir

☐ Travesseiro de pescoço

☐ Objeto de conforto

☐ Kindle ou tablet

☐ Óculos de sol

☐ Boné


Alimentação

☐ Água

☐ Snacks

☐ Lanches

☐ Talheres

☐ Bolsa térmica


Tecnologia

☐ Celular

☐ Carregadores

☐ Power bank

☐ Adaptadores


Perguntas frequentes sobre viajar com criança autista (FAQ)

Preciso apresentar laudo para viajar?

Nem sempre. Entretanto, carregar o laudo e a CIPTEA facilita atendimentos prioritários e situações em que seja necessário comprovar a condição da pessoa autista.


Vale a pena avisar a companhia aérea?

Sim. Informar antecipadamente que você viajará com uma pessoa autista permite que a companhia oriente sobre os serviços de assistência disponíveis.


Posso levar alimentos para meu filho?

Em muitos casos, sim. No entanto, consulte previamente as regras da companhia aérea e, em viagens internacionais, verifique também as normas sanitárias do país de destino.


Qual é o melhor assento no avião?

Isso depende do perfil sensorial da criança. Algumas famílias preferem assentos próximos à janela para reduzir estímulos visuais, enquanto outras optam por locais com acesso mais fácil ao corredor. O ideal é avaliar o que funciona melhor para seu filho.


Como lidar com mudanças inesperadas?

Ter um plano B e explicar previamente que imprevistos podem acontecer costuma reduzir a ansiedade. Sempre que possível, apresente alternativas antes que a mudança ocorra.


Conclusão

Durante muitos anos achei que viajar bem significava fazer roteiros perfeitos.

Hoje penso exatamente o contrário.

Viajar bem é voltar para casa com boas lembranças.

É respeitar o ritmo da sua família.

É entender que, às vezes, um passeio a menos significa muito mais qualidade de vida.

Como mãe, professora e também mulher autista, aprendi que não existe uma fórmula pronta para viajar com uma criança autista.

Existe observação, adaptação, acolhimento e muito planejamento.

Espero que este checklist ajude sua família a criar experiências mais tranquilas, seguras e felizes.

Se este conteúdo foi útil para você, compartilhe com outras famílias atípicas. Afinal, muitas vezes a dica que transforma uma viagem é justamente aquela que alguém decidiu dividir com carinho.

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